domingo, 17 de julho de 2011

Boa noite

Sou mais um beijo de “boa noite” que uma noite de sexo sem compromisso. Sexo é bom, mas sem afeto, carinho, apego, não significa mais que um momento passageiro seguido de um vazio existencial. Valorizo aqueles momentos que ficam. Porque que sexo a gente encontra em toda esquina. Já o amor, um em cada vida.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O melhor perfume


Sobre frascos e conteúdos...
Você encontrou o cara “perfeito”. Ele tem todas as qualidades que você sempre sonhou encontrar em alguém: é lindo, charmoso, de aparência impecável, um autêntico “gentleman”. Enfim, marcam um primeiro encontro, você usa o seu melhor perfume (afinal, a ocasião merece), e, quem sabe, começa um novo relacionamento.
Mas com o tempo, o gentleman revela-se uma pessoa totalmente diferente. E então, você se lembra daquela frase que a sua avó dizia: os melhores perfumes estão nos menores - ou nos mais simples - frascos.
É claro que alguns belos frascos também trazem em si perfumes magníficos, mas, infelizmente, nem sempre é o caso. E às vezes você descobre que o conteúdo daquele frasco maravilhoso não era tão bom quanto aparentava: e o prazo de validade era curtíssimo.
E você percebe que o cara “perfeito”, com todas aquelas qualidades que você atribuiu, não era nada daquilo. As palavras doces encobriam mentiras. A bela aparência dissimulava a personalidade fútil. O olhar charmoso, que parecia sincero, escondia gargalhadas por dentro. E a pele impecável não era nada mais que uma máscara.
Ao contrário de Elis Regina, que cantava “E as aparências não enganam não”, acho que as aparências enganam, sim. Volto a me lembrar da frase da vovó. A melhor fragrância pode estar naquele frasco que está do seu lado, na sua cômoda, esquecido porque sua embalagem pode não ser tão encantadora.
E talvez, aquele belo e caríssimo vidro de perfume esteja totalmente vazio, ou quiçá tenha líquido vencido e amarelado por dentro. E esses frascos vazios não merecem o nosso melhor perfume.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Amadurecendo


"A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade,querer com mais doçura."
Já nascemos com duas grandes e inevitáveis tarefas: a de conviver com nós mesmos e a de amadurecer. Cada ano que passa entendemos um pouco mais sobre ambas: aprendemos a olhar o passado, a aceitar que somos imperfeitos, que erramos, e a aceitar que no decorrer da vida precisamos abandonar as “roupas velhas”, já gastas pelo tempo.
Amanhã faço 24 anos e é o primeiro aniversário longe da minha família e dos amigos de longa data. Mas não devo reclamar, talvez este último ano tenha sido um dos mais significativos na minha vida, um ano de grandes mudanças e aprendizado.
Foi quando as despedidas começaram: adeus aos amigos de infância – que até outro dia eram “para sempre”. Adeus cheirinho de comida da vovó às 11:00. Adeus pai levando pra faculdade, pro trabalho... Adeus madrugadas na internet, porque afinal, agora o dever me chama logo pela manhã. Adeus ilusões, bem-vinda, realidade.
É quando você descobre que cresceu. Quando eu era criança, pensava que ao alcançar os 18 anos de idade já seria “gente grande”. A verdade é que a gente só cresce com as experiências e responsabilidades que acumula. E quando aprende a aceitar que nossas “certezas” não eram tão certas assim.
É como se você encontrasse outra pessoa dentro de você mesma, mas como uma versão atualizada: agora você paga suas contas, tem roupa para lavar, cronograma para seguir, casa para limpar e ninguém vai lhe acordar caso perca a hora para o trabalho (salve o despertador do celular!). Você está sozinha e agora tudo depende apenas de você - e dentro de um tempo cada vez mais escasso.
E nessa hora bate uma saudadezinha de tudo que passou. Dos amigos que já não vê. Das pessoas que passaram por nossa vida ficando tão pouco tempo. Das tardes sentadas na calçada, ouvindo as histórias do vovô. Das caminhadas despretensiosas durante as tardes de domingo. Da comida feita no fogão à lenha da fazenda nos fins de semana. Da casa cheia. De acordar com o barulho dos primos fazendo farra no quintal.
E claro, às vezes sente medo: de ter feito algo errado ou ser culpada por tudo aquilo que não deu - ou que pode não dar - certo. Mas ao mesmo tempo sabe que tudo isso é consequência de uma palavra que muitas pessoas jamais saberão o verdadeiro significado: amadurecimento.
E isso dá coragem para dar mais um passo. Tomar outra decisão. Amar de novo, esquecer de novo. Afastar-se para não voltar tão cedo. Entender que algumas coisas não dependem exclusivamente de você. Mudar. Talvez você não precise ter medo por estar distante das pessoas. Mas precisa se preocupar em estar sempre perto de você mesma.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Relações...


Entre os maiores percalços na história de nossas vidas, está a arte de dizer “adeus”.
Reaprender a viver sem alguém pode ser tão doloroso quanto sair do calor do útero da nossa mãe para enfrentar esse mundão de meu Deus. E enxergar tudo pela primeira vez, de novo.

A gente não pede para nascer, tampouco para que um determinado cidadão entre na nossa vida, invada nosso coração e instale-se feito um parasita... Sem nem pedir licença. Mas a gente nasce, cresce, e um belo dia esse alguém aparece, apossando-se dos nossos pensamentos – e da nossa vida.

Uns ficam pouco tempo e, ao sair, o estrago que causam é ínfimo. Outros, ficam muito e até criam raízes, e aí fica mais difícil arrancá-los sem que fique um indício de dor. E há aqueles que ficam pouco, mas de forma tão intensa que quando partem deixam uma fenda, um vazio na mente, na alma, no coração.

Há alguns que ficam, mas que são tão diferentes de nós que vão causando feridas dolorosas e várias rasuras no livro da nossa vida. E então, cabe a nós decidirmos se as feridas valem a pena ou se o vazio deixado compensa um pouco do sofrimento.

De escolhas certas e erradas é que são tecidas as nossas relações. Com um pouco de amadurecimento a gente aprende a acertar mais. Ou aprende a se aceitar mais. Entende que se foi bom, deve ser guardado na memória. E se foi ruim, é experiência.

Compreende que uns vêm e outros vão, como tudo na vida. E aprende a conviver com uns. E a sobreviver sem outros...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz 2011!


É hora de despedir-se de mais um ano: tem um novinho pronto para nascer.

É hora de celebrar as amizades firmadas durante 2010, comemorar as vitórias conquistadas, os obstáculos vencidos. Relembrar-se dos aprendizados.

É hora de planejar os próximos passos, ou quem sabe recomeçar do zero, se preciso for.

Não faça lista de boas intenções para guardá-las na gaveta, nem chore de arrependimento pelas besteiras consumadas.

Alegre-se pelas coisas boas. E prometa a si mesmo sorrir mais, amar mais – mesmo com todos os riscos que isso acarreta – e a respeitar mais.

Sonhe e acredite que suas realizações dependem exclusivamente de você. Dê mais valor às coisas simples, goste mais de si mesmo. Saiba perdoar e recomeçar, afinal o tempo passa muito rápido.

Não olhe muito para o passado, nem viva de fotografias amareladas. Aproveite o presente e seja feliz, porque os melhores momentos da vida podem ser relembrados, mas nunca revividos.

E lute: pois para que um ano seja realmente novo e cheio de boas mudanças, você deve merecê-lo.

Desejo um feliz Ano Novo para todos vocês!



Karina Perussi

sábado, 6 de novembro de 2010

O silêncio...


Por que cobram tantas palavras, a todo instante? Falar muito deveria ser uma regra? Há quem fale muito para que o silêncio não revele o essencial.

É que silêncios são confissões: às vezes assustam. Dizem muito, revelam, machucam, desesperam. Apenas alguns aliviam. Silêncio é palavra não dita. Mas inegável: mais fácil arrepender-se de uma palavra que de um silêncio. E contra esse fato não há argumentos – nem mesmo palavras.

Acredito que o segredo da comunicação está, antes de tudo, em saber ouvir: ideias, valores, anseios, desejos.

Palavras são promessas nem sempre cumpridas. Atos são mais sinceros, revelam o que o coração não diz.

É no silêncio que ouvimos nosso interior, ao mesmo tempo em que voltamos nossos olhos ao outro e os tiramos do nosso egoísmo.

O silêncio nos leva a flutuar entre melodias, ouvir estrelas, contemplar verdadeiramente o belo. Enxergar o mundo. Nego o desestimo as palavras, mas em momentos em que os olhos são capazes de falar, elas tornam-se desnecessárias.

Às vezes, vale uma velha frase: "Ao dizer alguma coisa, cuide para que suas palavras não sejam piores que o seu silêncio."


domingo, 26 de setembro de 2010

Não perca seu tempo


"Não perca seu tempo. A vida é o trem que passa, não a estação que para"

Ei, você, que tem 20 e poucos anos. Ou 30, não importa. Os anos deveriam ser contados pela maneira como os vivemos e não pela data cronológica que o calendário impõe. Eu queria falar para você não perder tempo.

Não perca tempo sofrendo porque aquela pessoa, que você diz ser perfeita, nem olha para você. Isso prova que ela está bem longe de ser.
Chore, se perdeu um amor ou um ente querido. Mas chore pelo tempo certo, depois é preciso viver.

Não ignore os conselhos que recebe, um dia você pode precisar deles. Ouça os mais experientes.

Não perca muito tempo pensando em seu futuro financeiro, gaste: o futuro é incerto. Não deixe de comprar aquela roupa que é o seu sonho de consumo ou de viajar para a praia dos seus sonhos.
Sonhe: mas não perca muito tempo sonhando, pois só quando acordamos é que realizamos. É preciso sonhar, mas é obrigatório viver.

Não perca tempo com dieta. Coma chocolate e beba Coca-Cola ‘não-diet’. Se realmente estiver incomodado com seu peso, entre numa academia.
Não perca tantos sábados em casa: diga mais “sim” aos convites que recebe. Talvez você não possa fazer isso daqui a alguns anos.

Está entediado neste domingo? Aproveite e leia mais: é viajar sem ter que sair de casa.
Não se apegue aos seus pequenos problemas nem se apequene diante da indiferença de alguns. Problemas existem para serem resolvidos e a indiferença serve para mostrar que não devemos perder tempo com algumas pessoas, afinal, há bilhões no universo.

Acredite no amor, mas não o espere. Quando estamos à espera de alguma coisa ou de alguém, o tempo da espera parece interminável.
Não perca tempo com raiva, troque a cara franzida por um sincero sorriso. Aparentemente, você envelhecerá bem menos. Aproveite a melhor idade da sua vida.

Não importa se você levou um fora, se sua amiga te deu um “bolo”, se o dinheiro está cada vez mais curto. Amanhã e sempre tudo pode mudar.
Preste mais atenção no que há de belo: o mar, a Lua, as estrelas. Com o tempo você terá a consciência de que nem as jóias mais caras podem fazer alguém mais feliz do que essas pequenas grandes coisas.

Não perca tempo com pessoas “pequenas”, que não mudam e nem evoluem: talvez seja a lição do “atraso e espera” que elas tenham que aprender.
“Sinta” uma bela música com intensidade, até que ela arranque algumas lágrimas dos seus olhos. É a prova de que somos seres dotados de emoção.

Não olhe seus “defeitos” quando se deparar com seu espelho. Enumere suas qualidades e não se esqueça que o que há de mais belo, como disse Exupéry, não é visível aos nossos olhos.
Não perca seu tempo pensando o que os outros acham de você. O que importa é o que você realmente é, independente da opinião de quem sabe ou não lhe julgar.

Não perca tempo olhando para o telefone. Tire-o do gancho, ligue.
Não perca tempo acreditando em sorte e azar. Tudo tem 50% de chance de dar certo, ou não. Pense, mas não se perca em pensamentos antes de tomar decisões.
Não perca tempo, essa idade passa muito rápido, a vida passa cada vez mais depressa. E a sua única obrigação durante esse tempo é ser feliz.

Não perca oportunidades, não deixe passar nenhum momento mágico, valorize cada segundo. Eu não posso ir até aí e te dar um ‘chacoalhão’, dizendo: aproveite essa vida agora, você não terá outra”. Mas, eu espero que daqui alguns, anos eu não ouça de você um “eu não fiz tudo o que eu queria".

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Janelas


Abertas, cheias de esperança
Fechadas, apenas janelas
Por elas vemos o mundo
O cotidiano é revelado por elas
Janelas que escondem dores
Janelas que presenciam amores
Janelas
Como será por trás delas?
Janelas que revelam
Outras que ocultam
Janelas que nos libertam
Janelas que nos esperam
Janelas
Debruçamos e sonhamos nelas
Janelas que se fecham à noite
A vida é cheia delas
Janelas que se abrem como livros
Janelas que contam histórias
Janelas modernas, outras antigas
Janelas que iluminam
Janelas que silenciam
Janelas que espiam
Janelas,
A luz do sol entra por elas
Janelas da nossa alma,
Como seria sem elas?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Scripta manent, verba volant


“Aconteceu num [domingo]. O sol já caminhava na metade do seu percurso quando preguiçosamente resolvi sair da cama. Sem coragem de tomar um ônibus para ir à praia, optei ficar em casa e ler. Fui até a instante, sempre abarrotada e sempre empoeirada, querendo um livro que me servisse de companhia naquele dia, que eu supunha sem importância. [O livro de Ricardo Gondim] se sobressaiu; parecia pedir-me que o escolhesse.”

Não imaginam a minha alegria quando cheguei de viagem (era feriado, 07 de setembro) e me deparei com o livro de Ricardo Gondim sobre a mesa da cozinha. Provavelmente, entregue pelo porteiro para alguma de minhas colegas de apartamento. Uma bela fotografia de capa e um título chamativo: “Sem perder a alma”.

E justamente no domingo (visto que meu tempo durante a semana é cada vez mais escasso) sentei-me na sacada e comecei a degustar cada palavra. Como Gondim mesmo me disse: “Um escritor gosta de ter suas obras mastigadas”.

Conheci Ricardo Gondim por meio dos famosos "140 caracteres" e muito identifiquei-me com sua escrita. Encantei-me com suas palavras, com o jeito sutil de observar o mundo, as pessoas e os sentimentos, pelo modo com que brincava com as palavras, como se elas dançassem com graciosidade pela minha “timeline”.

Ao ler “Sem perder a alma”, percebi que Gondim não escreve apenas de forma lacônica como mostra nos 140 caracteres, mas escreve com profundidade e... alma! Ele fala também sobre sua paixão pela escrita e acredita, assim como eu, que “as palavras são fluídas, voláteis, refratárias. Só quem escreve tem permanência.” Talvez seja por isso que, subconscientemente, sempre preferi e-mails a telefonemas. Nunca fui muito de falar, gosto da escrita que me permite reler, me permite corrigir, que fica gravada. Ela é perene enquanto o som da voz é flecha lançada.

Em seu livro fala um pouco de tudo: amor, riqueza, fé, decepção, arrependimento, lições de vida, saudade e diversas outras experiências. E claro, conta como surgiu sua paixão por literatura e escrita. Gondim não fala em Perder a alma no sentido de morrer e ir para o inferno, mas de perderem-se os afetos, a sensibilidade humana e a solidariedade. Verdadeiros bens preciosos.

Quero compartilhar algumas palavras com vocês, e espero que guardem em seus corações como eu as guardei.

“Aprendi a valorizar a fidelidade como uma virtude raríssima; sei ser grato pela mão estendida, sinto-me endividado pelo amor gratuito.”

“Viver me enche de entusiasmo. Não tento mais matar o tempo. Quero sorver a vida com tudo o que ela tiver de bom e de ruim. Como um colecionador de borboletas, procurarei guardar, daqui para frente, todos os meus momentos em estojo de cristal”.

“Amar requer coragem (...) Para que o amor aconteça, as gaiolas devem ser abertas, os cadeados destravados e os caminhos liberados.”

“A grandeza de uma causa não é determinada pelo que seus seguidores ganham ao segui-la, mas pelo preço que estão dispostos a pagar por ela.”

“A gente acaba aprendendo a disfarçar as angústias mais profundas. Bastam algumas sessões fotográficas para o desenho da boca não denunciar qualquer dor e os olhos deixarem de ser janelas da alma.”

“Sinto que Deus ainda vive no sonho das crianças; ainda habita onde reside a musa do poeta; ainda se revela no desejo do profeta; ainda se move além do horizonte utópico do guerreiro.”

“Minha saudade é incontrolável; sabota os fossos mais resistentes do coração. Faz metáfora do tudo; busca trazer à tona a vida submergida.”

“Quando parecer melancólico, com um olhar triste, não se espante. Estou com saudade”.

“...aprendi que a maioria das pessoas não teme morrer, mas se apavora em não saber viver.”

“Não adianta querer sonhar a mesma coisa duas noites seguidas. O sexo de ontem não será igual ao de amanhã. A onda do mar nunca retorna como era; o rio morre a cada instante.”

“A beleza das cores, o prazer do vinho, a alegria do amor têm data marcada para terminar. A vida é efêmera.”

“Sem porto para atracar, faço da vida um sempre por navegar, pois viver não é preciso.”

“A felicidade só tem permanência da memória, somos felizes à medida que guardamos o que um dia nos marcou. Não passa de cheiros que lembram pessoas e lugares inesquecíveis; é um de já vu que ressuscita eventos submersos.”

“O próximo tanto pode ser fonte de alegria, como de frustrações. Quem tenta isolar-se para não passar decepções, empobrece.”

“Todos devem ansiar por amabilidade. Por isso, devem ser menos empreendedores e mais sensíveis, menos paladinos e mais solícitos.”

“Amizades superficiais são mais danosas para o espírito do que inimizades explícitas.”

“O poder nos torna arrogantes, frios, duros e inclementes. Somente a fragilidade nos torna dóceis, amáveis e de fácil relacionamento.”

“Quem tenta blindar-se das tristezas precisa também se proteger da alegria. Fugir do sofrimento significa amortecer a felicidade”.

“Relutamos com a consciência de que a todo instante o passado cresce e o futuro diminui.”

Gostaram? Verão muitas outras, maravilhosas, em seu twitter: @GondimRicardo. E não preciso nem dizer que "Sem perder a alma" é altamente recomendável para quem gosta de pensar.

domingo, 29 de agosto de 2010

A felicidade mais simples


Eu estava entristecida há alguns dias, e nem sabia exatamente o porquê. Não chegava a ser pungente, mas uma tristezinha de papel fino, dessas que envolvem os nossos pensamentos. Você deve saber do que estou falando.

Acho que nossas angústias geralmente estão ligadas às perdas: nos apegamos demais às coisas, ao tempo, às pessoas. Esquecemos que as coisas se acabam, o tempo passa, e as pessoas se vão. E as pessoas que se vão, ah... Muitas vezes deixam marcas irreparáveis.

Em dias assim gosto de ir a lugares que me inspirem, para sentar, refletir, observar tudo a minha volta. Sempre fui uma dessas pessoas que gostam de olhar o pôr-do-sol, sentir o vento, a chuva, mas eu gostava de fazer isso com “ele”... Já dizia Drummond que de “mãos dadas” tudo pode ficar mais bonito.

Acredito que uma bela paisagem não tem muito sentido quando não pode ser compartilhada, talvez seja como possuir um belo quadro e guardá-lo dentro do armário, só para você mesmo vê-lo.

Mas eu não queria lembranças e sabia que enquanto não praticasse a "arte do desapego" e aprendesse a encantar-se com as pequenas coisas, ficaria impraticável atravessar os dias. Comecei então a procurar sorrisos, para descobrir o que fazia cada uma daquelas pessoas felizes.

Observei por um bom tempo uma mulher de aproximadamente 40 anos, que aprendia a andar de bicicleta. Ao errar e quase cair, ela sorria, meio sem jeito, talvez com vergonha das pessoas que caminhavam naquela travessa. Sua felicidade era quando conseguia pedalar alguns metros. E isso eu via no brilho dos olhos dela.

Uma criança descalça, na beira do rio. Olhava para os seus pés e divertia-se com a sensação do chão crescer macio sob eles... Não se importava em sujar a barra da calça, só queria ‘sentir’. Outra garotinha saboreava um algodão doce e, com uma olhar inocente, brincava com a leveza do açucar em forma de nuvem. Aliás, acho mesmo que as crianças sejam mais felizes que nós: são puras, podem enxergar a felicidade nas pequenas coisas, como alimentar os pombos ou soltar pipas.

E quanto a nós? Vamos depender de “outro” para contemplar o belo? Vamos esperar pelo “outro” para ser feliz? Esperar o inverno passar? Cada um pode encontrar, todos os dias, algo que desperte sorrisos. Parar para ver a Lua ou ouvir o som da chuva batendo nas folhas. Ler um bom livro embaixo de uma árvore. Escrever um livro. Plantar uma árvore. Você não precisa de alguém para fazer tudo isso.

Cultive agora mesmo a felicidade mais simples, incondicional, que há "aí dentro". Eu, por exemplo, fiquei feliz hoje ao encontrar raras flores de cerejeira. Elas são como os ipês: florescem no inverno, avesso às outras flores que ficam esperando pela Primavera...