quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O destino que eu quero, eu faço


“O destino conduz os que querem ser conduzidos e arrasta os que
não querem. Eu tenho andado mais ou menos de arrasto,
Nem sempre quero ir para onde o destino me leva."

Você acredita em destino? Sei lá, me deu vontade de escrever um pouco sobre isso. Nas discussões que envolvem o tema a dialética é sempre a mesma: há quem afirme que ele é traçado assim que nascemos e quem acredite que ele é moldado de acordo com as nossas vontades.

Uns preferem não se preocupar, dizendo que o destino não dependerá de suas atitudes para se cumprir. Talvez seja cômodo pensar assim, afinal, para quê lutar por algo se ele não estará no nosso futuro? Outros, têm a certeza de que o destino vai se formando nos momentos de decisão. Hoje eu faço parte do segundo grupo.

Mas acreditei, em boa parte da vida, que o destino fosse aquela coisa bacana, que “pela ordem natural do universo” faz tudo dar certo no final. Assim como nos filmes da Disney e nas novelas do SBT. “Oh, mas o destino fará com que fiquem juntos no final! Ah, está no destino dela ser feliz e ter uma carreira brilhante!”. Se lutarem por isso, sim. Se ficarem a “mercê” do destino e de braços cruzados, jamais.

E ainda há outra vertente: enquanto uns criam os acontecimentos, outros suportam o que acontecem na sua vida atribuindo às causas como sendo impostas pelo destino. É fácil usar o destino como uma “desculpa” para o fracasso, mais fácil que admitir nossas falhas, não é?

Embora eu já tenha causado uma breve discussão no Twitter por causa dessa palavrinha, continuo com minha tese de que destino é a gente que faz. EU decido quem eu quero ser, não o destino. Eu cultivo os amigos que quero, seleciono os livros que eu leio, opto pelos valores que abraço. Vou para onde quero viver.

Destino eu faço quando me levanto do comodismo do meu sonho e vou à luta para torná-lo real, mesmo que eu precise criar o que quero para ser parte daquilo. Caso contrário, o ”livre arbítrio” não teria sentido algum. Desde as minhas mínimas escolhas, todas elas formam o meu destino. O destino que eu quero.

Como diria Jack Welch: "Controle o seu destino ou alguém controlará." E você? Quer ser dono do seu destino?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

[Des]amor moderno


O amor está com a data de validade vencida. Se não, está pra vencer. Os casais cada vez mais pensam no “eu” e se esquecem do “nós”. Cobram por amor “full time”, mas não estão dispostos a doar-se inteiramente por esse mesmo amor que esperam. Querem o “feedback” da atenção que não dão.

Companheirismo, paciência e tolerância com os defeitos do parceiro não têm mais espaço. Cederam seus lugares ao desejo de um “amor mercadológico” e instantâneo: tenho tudo o que quero, experimento, uso, jogo fora ou troco por um modelo melhor na hora que eu quiser. Os aplicativos de pegação estão aí: é “delivery de amor”, 24 horas.

Tem relacionamento que segue a linha “fast-food”. Isso mesmo: comida rápida. Muitas vezes cobram a lealdade do parceiro, mas não querem prender-se a uma única pessoa já que há tanta oferta barata por aí. E tão barata e fácil, que aquele belo “amor à primeira vista” já deu lugar ao “amor a prazo”.
Sim, e o prazo é curtíssimo: é quase um amor descartável, encontrado aos montes por “search” nas redes sociais. Ganha quem conseguir o maior “time per person”, não necessariamente nessa ordem. Tem gente que quer ser “freela” quando o assunto é amor.

A casa vira uma empresa, o casamento um bem de consumo. E dependendo da sua sorte você fica com os bens. A Lei até facilitou o divórcio. Devem estar prevendo que amor se tornará uma instituição falida.

Alias, alguém falou de amor? Em breve, uma nova reforma ortográfica vai eliminar de vez esse vocábulo de livros e dicionários. E as declarações de amor? Se já não foram extintas, serão tão raras e rápidas que vão ser dignas de “retweet”.

O “deadline” do amor está próximo. De repente, a modernidade abriu um notável espaço para o desamor. Melhor ficar em modo “stand by”.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Além da Democracia...

"Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um."

Este não é o tipo de texto que costumo postar aqui e tampouco pretendo começar a falar sobre política no meu blog. É apenas uma exceção devido à fase que atravessamos. O fragmento que segue abaixo da breve introdução (O voo 0666) é de autoria de Rubem Alves, e retirei de um de seus livros que li há pouco.

Mais do que defender a “democracia” e o candidato que você escolheu, é importante estar atento, saber avaliar quem realmente está preparado e tem competência para governar o país. E tentar fazer do Brasil um lugar melhor é compromisso que deve sobrelevar a “fidelidade partidária”.

Acho que a democracia perde um pouco o sentido quando passa a contabilizar mais pessoas disputando quem tem o melhor candidato do que pleiteando seus verdadeiros ideais. Competência para comandar um país vai muito além de um nome e/ou uma sigla.

É preciso cultura, conhecimento, pulso. Às vezes acho necessário, e até inteligente, ignorar o que dizem as pesquisas, afinal, “seguir a boiada” nem sempre é a atitude mais sensata. É preciso pensar com a própria cabeça: abandonar o comodismo, ser curioso, pesquisar, investigar.

Nesses meses que antecedem as eleições é bom inferir sobre nossa liberdade eleitoral, estar por dentro de tudo o que acontece, com todos os candidatos. Que esse pequeno texto o leve a uma breve reflexão e o ajude a fazer a escolha certa. Porque quem reflete pouco, acaba errando muito.

O voo 0666
“Senhores passageiros do voo 0666, Paris-São Paulo, da TARIG, linhas aéreas democráticas”. A voz soou metálica na sala do aeroporto onde os passageiros aguardavam o início do embarque. Cessaram imediatamente as conversas, fez-se silêncio e os passageiros trataram de prestar atenção nas instruções que se seguiram. A voz continuou: “A TARIG, linhas aéreas democráticas, no esforço para democratizar os seus serviços, avisa os senhores passageiros que dentro de alguns minutos terá início uma assembleia livre soberana para a escolha democrática do piloto que comandará o voo Paris-São Paulo.

Os candidatos poderão se inscrever no balcão da empresa devendo, para isso, preencher as seguintes condições: (1) ser maior de idade; (2) dar prova de ser capaz de assinar o nome”. Fez-se um grande silêncio na sala de embarque. Os passageiros, olharam uns para os outros, incrédulos, pegaram suas bolsas, pastas e mochilas e em silêncio deixaram vazia a sala da TARIG, linhas aéreas democráticas, e foram em busca de uma linha aérea que, sem ser democrática, fosse inteligente e que escolhesse seus pilotos por competência e não por voto da maioria.

domingo, 1 de agosto de 2010

“No meio do espinho tinha uma rosa, tinha uma rosa no meio do espinho"


Sim, lhe é familiar essa frase. É inegável que a poesia de Drummond marca de alguma forma a vida de quem conhece sua originalidade. Em “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, Drummond expressa situações de dificuldade, impasse, de “impedimentos” que nos surpreendem em nossa caminhada. São obstáculos que enfrentamos e, de alguma forma, acabam deixando cicatrizes, que nem o tempo apaga... “Nunca me esquecerei que no meio do caminho, tinha uma pedra”.

Quando observei e fotografei essa pequena rosa, em meio a tantos espinhos, o poema de Drummond me veio à mente... Assim como nos deparamos, frequentemente, com pedras em nosso caminho, é comum defrontar-nos com os “espinhos” das “rosas” que cercam o jardim de nossas vidas... As fraquezas daqueles que estão ao nosso lado. É preciso saber conviver com esses espinhos e extrair apenas o “perfume”, a essência, o que cada um tem de melhor, mesmo porque somos dotados tanto de virtudes quanto de defeitos. Somos flores entre espinhos, assim como temos pedras pelo nosso caminho... É preciso aceitar, para ser aceito. Quebrar pedras e cuidar das flores...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O que restou...


O que ficou de você em mim,
Foi a presença da sua ausência,
As lembranças que o tempo não apagou...
O que ficou de você nesse apartamento,
Foram algumas roupas, que logo serão devolvidas,
Os seus livros, alguns dos quais serão meus,
Aqueles que compramos juntos...
O que ficou foi a falta do seu sorriso nas manhãs.
E suas palavras ecoando na memória...
O que sobrou foi o seu olhar,
impresso na minha mente em preto e branco...
E o que restou do amor,
Foram apenas algumas flores secas,
Guardadas em meio a um livro...
O que ficou foi a vontade do que não foi
E que poderia ter sido...
Ficou a saudade do primeiro encontro,
E o desejo de que ele não houvesse acontecido...
Restou o silêncio das palavras não ditas,
E as estrelas que colamos no teto do quarto,
Algumas caíram quando você se foi...
O que sobrou foram nossos retratos e,
Quando vi uma foto da gente feliz,
Custei a acreditar que fosse real...
Ficaram os nossos erros,
talvez algum indício de perdão...
E então,
Lembrei de que não me preparei
Para a sua vinda,
E nem pude prever sua partida...
E quando você se foi de vez
O que eu poderia fazer?
Ficar com o que restou...
E o que restou fui eu.
E um vazio...
Algumas palavras são apenas lágrimas que foram escritas...

domingo, 11 de julho de 2010

Fotografo porque...

... a ideia do fim me dói.

"De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-Ias voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória."

Observam e me perguntam por que sempre estou com minha máquina fotográfica. Meus amigos sentem-se, muitas vezes, incomodados por eu querer fotografar a todo o momento, principalmente quando os incluo entre as fotos. Alguns até se recusam. Explico.

Penso que tudo o que é belo deve ser imortal. Não suporto - tampouco aceito - a idéia do que é efêmero. Acho que os bons momentos devem ser eternizados. Talvez seja uma espécie de luta contra a morte.

Fotografo um pôr do sol, porque sei que ele nunca será o mesmo embora o sol renasça a cada dia. O céu é sempre belo, mas as nuvens transformam-se constantemente.
Fotografo uma flor, para que ela permaneça com suas cores vivas, mesmo após o tempo que envelhece, que seca, que mata.

Fotografo um sentimento – e sim, é possível fotografar sentimentos – para que continue vivo mesmo com sua efemeridade. Um sorriso, uma lágrima, um abraço. Olhares cheios de amor eternizados em fotos, mesmo que adormecidos dentro dos corações dos amantes. A felicidade que dura um pequeno instante.

Fotografo pessoas. Porque elas se vão, sempre. E fica essa lembrança, apenas.
Fotografo a chuva, a folha molhada, porque as gotas espalhadas uniformemente nunca cairão sobre a mesma superfície em semelhante disposição. É a arte da natureza, diferente a cada dia.
Fotografo momentos, porque também não se repetem com a mesma exatidão, nem com o mesmo sentido.

Fotografo a mim mesma, porque conheço a inexorabilidade do tempo e sei que ele trará inevitáveis rugas à minha face.
Fotografo um rio, pois quando tornar a vê-lo, as águas que correm por ele jamais serão as mesmas.

Fotografo monumentos, que o tempo e a chuva vão corroer, consumindo-os lentamente.
Fotografo as festas que vou. Ao rever as fotos posso ouvir as músicas na minha memória, relembrar de cada pessoa que fez parte da minha vida, mesmo que por apenas algumas horas.
Fotografo a primavera, o outono, o inverno, o verão. Uma eterna metamorfose cíclica. E não sei quantas voltas ainda poderei ver.

Desde que comprei minha primeira câmera, tenho minha vida eternizada. Meus amigos, embora reclamem. Meus amores, embora nem sempre seja tão bom recordá-los, sei que estarão lá, guardados, como prova de que um dia valeu a pena.

Entristeço quando um belo momento passa diante de meus olhos sem que eu tenha uma câmera em mãos. Pois além de querer compartilhá-lo, sei que não é seguro submetê-los apenas ao teste da memória. Porque com o tempo, ela enfraquece.

E quando eu me perguntar para onde foram os dias que eu vivi, a reposta estará em cada página dos álbuns que eu abrir.

Já dizia o poeta que “recordar é viver...”

domingo, 4 de julho de 2010

Na feira de domingo...



Hoje foi dia de feira aqui perto de casa. As feiras aqui em São Paulo se assemelham muito às do interior, exceto pela vastidão dos corredores. Marco presença quase todas as manhãs de domingo, quando consigo acordar sem que o despertador interrompa meus sonhos. Por isso aos finais de semana deixo a janela aberta: para despertar espontaneamente com os raios do sol.

Gosto de ir à feira para saborear os famosos pastéis de vento que, por sinal, aqui são muito bem recheados e trazem o gostinho da minha infância, gostinho familiar de "quero mais". Tanto que até esqueço que me encontro em um “mundo desconhecido”, sozinha em uma cidade gigante como essa, perdida entre tantos rostos.

Mas além dos pastéis, das vozes dos feirantes que se misturam, cada qual oferecendo sua melhor colheita, além da infinidade de cores, cheiros, sabores, além dos cachorros rodeando o “churrasquinho grego”, dos carrinhos atropelando meus pés e dos legumes pisoteados no chão, muita coisa desperta meu olhar curioso.

O vendedor de mel que enfrenta o medo das abelhas para poder oferecê-lo em pequenos gomos, a simpatia dos feirantes que nos abordam com um "bom dia" e nos oferecem o fruto de seus trabalhos, e que com certeza são os melhores publicitários que já conheci: “Olha a abobrinha baratinha, olha o morango fresquinho!” Também a esperança da vendedora de buquês de flores que acredita que levará um pouco mais de amor, sorrisos ou mesmo de reconciliação aos enamorados, e a alegria do vendedor de peixes que se diverte jogando pedrinhas de gelo em seu concorrente. Mas não, não há concorrência! Lá todos são amigos, unidos por um mesmo propósito.

Eu queria falar de todos, mas encerro com o vendedor de garapa que me chamou muito a atenção. Com esforço ele mói cada galho de cana, que aos poucos se transmuta em um líquido tão doce quanto mel. Como se estivesse moendo a rudeza e o amargor da vida para extrair a brandura de um viver adocicado. E em copos de 300 e 500ml acredita que pode espalhar um pouco mais de doçura por aí, a um preço que todos podem pagar... E espalha! Não apenas o sabor doce da cana, mas a ternura de palavras gentis, de um sorriso aberto a cada um que se aproxima de sua barraca.

Em dia de feira parece que tudo fica mais alegre e colorido, apesar da languidez do domingo. Que bom seria se, além de copos de garapa e gomos de mel, vendessem copos de ternura, potes de felicidade, doses de ânimo e pacotinhos de sorrisos. E como isso não é possível, sejamos então como o vendedor de garapa: façamos a nossa parte para adocicar um pouquinho a vida de cada um que cruza nosso caminho pelos corredores da vida!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Escolhendo...


Tenho refletido sobre escolhas. Desde pequenos somos expostos a inúmeras opções, das quais precisamos escolher uma. Apenas uma. E confesso: decisão nunca foi meu ponto forte. E tenho a impressão de que cada fase da vida complica mais. Aliás, convicção.

Tenho saudade de quando o mais difícil era escolher entre o leite com Nescau e o leite com Quick. Quando a dúvida persistia por horas, acabava misturando os dois e até que ficava bom. Depois, escolher entre jogar bola ou andar de bicicleta. Às vezes, ainda era possível intercalar. Por fim, já na escola, tinha que escolher entre sentar com a Juliana ou com a Érica. Era demasiadamente difícil para mim, já que a professora nunca deixava sentar em trio.

E assim sucessivamente: escolher entre as aulas de inglês e as de natação, entre ir ao cinema ou à lanchonete, entre o Leonardo e o Rodrigo, entre fazer um curso técnico ou cursinho. Como foi ficando complicado!

Tive que escolher amizades, atitudes, escolher entre rock e pagode, entre certo ou errado, entre ler ou escrever, escolher entre cabelo loiro ou vermelho (tentei as duas cores de uma vez, mas não deu muito certo), escolher em que – ou em quem – acreditar, escolher entre sonho e realidade. Sim, um dia eu escolhi o sonho, mas a vida insistiu em me jogar com força pra realidade. Descobri, então, que algumas escolhas não dependem exclusivamente de nós.

Cresci, e tive que escolher uma profissão, uma faculdade. Ok, foram algumas tentativas: magistério, desenho industrial, enfermagem. Enfim, me formei em publicidade. E não sei se era isso mesmo. Aliás, era sim. Mas quero mais do que isso. Escolher a cidade. Ah, essa decisão ainda está com o processo em andamento. Na verdade pretendo não demorar mais que um ano para a sentença final. Final, mas nunca irreversível.

Escolher caminhos, pessoas, carreira. Escolher o que realmente queremos para nossa vida. Escolher entre o amor e o trabalho, a distância e o conforto, meu lar e o mundo. Pergunto: por que escolher é tão difícil? Talvez porque toda escolha traz consigo uma perda. Não dá para abraçar o mundo, muito menos saber o que é realmente certo. Eu, mesmo colocando todas as características de cada escolha em uma balança, dificilmente chego à alguma conclusão.

É tentativa e erro. É preciso escolher um caminho e se jogar nele de corpo, alma, vísceras e coração. Se decidir voltar atrás, desde que isso seja possível, não vejo como sinal de fracasso. Fracasso é insistir em uma escolha errada. E errado, é não escolher SER FELIZ.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A insustentável satisfação do ser


A velha impressão de que vivemos a espera de alguma coisa, não se sabe o quê, de alguém, não se sabe quem. A vontade de chegar à algum lugar, quando não há nenhum lugar para ir. Porque pensamos que a vida não pode ser “apenas isso". É a sensação de incompletude, de que algo nos falta para ser feliz, alguma coisa que nos preencha. Mas o quê?

Quando temos um bom emprego, falta-nos o amor, se temos o amor, falta-nos o emprego. Se temos ambos, então nos faltam os filhos, cachorros, amigos. E quando parece que tudo está completo, a surpresa: o amor se desfaz, os filhos se vão, o trabalho torna-se exaustivo. E começa o desassossego. É preciso viajar, trabalhar mais, fazer um curso, mudar de emprego, de mulher, de marido. Ninguém sustenta a satisfação por muito tempo. Quando menos se espera, bate o vazio, a sensação de que tudo está errado. E começamos a incessante busca por aquilo que nem sabemos o que é.

Um amigo, há um tempo atrás, dizia estar infeliz. Motivo: estava desempregado. Dois meses depois começou a trabalhar, tendo um salário razoavelmente bom. Novamente sentiu-se insatisfeito, o que o levou a pedir demissão e partir para um novo emprego que, segundo ele, era perfeito. Mostrou-se uma pessoa feliz durante os dois primeiros meses, quando começou a reclamar a falta de um amor. E se ele encontrasse o amor, certamente ainda lhe faltaria algo, era só questão de tempo.

Gangchen Rinpoche, um curador tibetano, fala sobre este sentimento de incompletude: "Frequentemente, sentimos falta de algo quase imperceptível, algo que não é mental, intelectual. Até mesmo nas situações privilegiadas, em que pensamos estar satisfeitos, logo surge esse sentimento sutil de que algo nos falta. Temos, então, a prova de que a vida material não é suficiente, e saímos em busca de algo mais espiritual. Esse algo que nos falta é encontrar e tocar nosso próprio potencial de paz.”

A expectativa também é um problema. Muitas vezes penso que a insatisfação venha do desejo de esperar que algo externo possa tornar-nos felizes. Uma mudança de cidade, de religião, uma nova aquisição material, talvez um novo namorado(a). Esperamos que, ao realizar todas essas ilusões, nossa vida dê um giro de 360 graus. Engano, claro. Em curto prazo pode parecer que está tudo bem, mas logo, lá está ela: a insatisfação do ser. Falta calmaria ou falta agitação. Falta alguém ou falta solidão. Falta tudo ou sobra demais.

É possível que nossa insatisfação sirva de alavanca aos nossos objetivos, incentivando a busca por novas ideias, por uma vida melhor. Possível, apenas. E às vezes me desespero. Pergunto-me se um dia, afinal, estaremos realmente felizes, completos. Mas parece que não existe vida plena. Talvez, apenas no último suspiro, com a sensação de missão cumprida, de final feliz. Enquanto isso, procuro significados e respostas. Pois soluções, provavelmente eu nunca encontre.

Ah, e quanto ao título do texto, fiz alusão ao livro “A insustentável leveza do ser”, que aborda sobre a leveza e o peso. Excelente livro de Milan Kundera, romancista tcheco, autor de diversas obras memoráveis. Penso que nossa insatisfação seja o “peso” que carregamos junto à vida. De qualquer forma, em ambos os casos, o problema é a própria existência, o problema é "ser".

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Cidade cinza


Cinza. Da cor da neblina, do sol quando se esconde por trás das nuvens, da poluição. Da cor da tristeza, do frio, do rijo concreto. Sim, da cor de São Paulo. Não tenho nada contra o cinza: ele é indiferente, medíocre. Tanto quanto a indiferença de gente que se evita, que se afasta, que se mata.

Cinza, da cor do metrô de uma cidade inóspita. Da cor da enxurrada que transborda o asfalto. Dos viadutos que engolem as ruas. Cinza, da cor da faca e da bala que correm soltas na sexta, no sábado, no domingo. Todo dia.

O cinza da fumaça do ônibus que atrasa e do trânsito que congestiona. Cinza das estradas, batizadas de avenidas, das pontes pelas quais nem se pode andar.

Cinza, da cor das grades, das pistas, dos fastigiosos muros que separam os vizinhos, os amigos. Todos apartados, tudo cindido. Cinza, como os quadriláteros restritos, onde a felicidade custa caro.

Cinza das ruas abandonadas, escuras, do boteco sujo, que às vezes é banhado por vermelho. Vermelho sangue. Vermelho, como a luz da sirene. E só, porque o resto é tudo cinza. Tudo espanta, amedronta. E às 19h todos fogem para suas casas, e se trancam, e olham o mundo de longe, por uma TV, às vezes branca, preta, e cinza.

Cinza, da cor das pichações desbotadas no topo dos prédios, dos monumentos. Pichações que agridem, que semeiam ódio. Cinza de mofo. Sentimentos mofados, porque para eles nem sempre há espaço. Nem tempo.

Cinza. Da cor do rio que corta a cidade. Da pobreza dos becos. Da cor do “pó” da indiferença, da solidão. Da cor do lixo.