quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Janelas


Abertas, cheias de esperança
Fechadas, apenas janelas
Por elas vemos o mundo
O cotidiano é revelado por elas
Janelas que escondem dores
Janelas que presenciam amores
Janelas
Como será por trás delas?
Janelas que revelam
Outras que ocultam
Janelas que nos libertam
Janelas que nos esperam
Janelas
Debruçamos e sonhamos nelas
Janelas que se fecham à noite
A vida é cheia delas
Janelas que se abrem como livros
Janelas que contam histórias
Janelas modernas, outras antigas
Janelas que iluminam
Janelas que silenciam
Janelas que espiam
Janelas,
A luz do sol entra por elas
Janelas da nossa alma,
Como seria sem elas?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Scripta manent, verba volant


“Aconteceu num [domingo]. O sol já caminhava na metade do seu percurso quando preguiçosamente resolvi sair da cama. Sem coragem de tomar um ônibus para ir à praia, optei ficar em casa e ler. Fui até a instante, sempre abarrotada e sempre empoeirada, querendo um livro que me servisse de companhia naquele dia, que eu supunha sem importância. [O livro de Ricardo Gondim] se sobressaiu; parecia pedir-me que o escolhesse.”

Não imaginam a minha alegria quando cheguei de viagem (era feriado, 07 de setembro) e me deparei com o livro de Ricardo Gondim sobre a mesa da cozinha. Provavelmente, entregue pelo porteiro para alguma de minhas colegas de apartamento. Uma bela fotografia de capa e um título chamativo: “Sem perder a alma”.

E justamente no domingo (visto que meu tempo durante a semana é cada vez mais escasso) sentei-me na sacada e comecei a degustar cada palavra. Como Gondim mesmo me disse: “Um escritor gosta de ter suas obras mastigadas”.

Conheci Ricardo Gondim por meio dos famosos "140 caracteres" e muito identifiquei-me com sua escrita. Encantei-me com suas palavras, com o jeito sutil de observar o mundo, as pessoas e os sentimentos, pelo modo com que brincava com as palavras, como se elas dançassem com graciosidade pela minha “timeline”.

Ao ler “Sem perder a alma”, percebi que Gondim não escreve apenas de forma lacônica como mostra nos 140 caracteres, mas escreve com profundidade e... alma! Ele fala também sobre sua paixão pela escrita e acredita, assim como eu, que “as palavras são fluídas, voláteis, refratárias. Só quem escreve tem permanência.” Talvez seja por isso que, subconscientemente, sempre preferi e-mails a telefonemas. Nunca fui muito de falar, gosto da escrita que me permite reler, me permite corrigir, que fica gravada. Ela é perene enquanto o som da voz é flecha lançada.

Em seu livro fala um pouco de tudo: amor, riqueza, fé, decepção, arrependimento, lições de vida, saudade e diversas outras experiências. E claro, conta como surgiu sua paixão por literatura e escrita. Gondim não fala em Perder a alma no sentido de morrer e ir para o inferno, mas de perderem-se os afetos, a sensibilidade humana e a solidariedade. Verdadeiros bens preciosos.

Quero compartilhar algumas palavras com vocês, e espero que guardem em seus corações como eu as guardei.

“Aprendi a valorizar a fidelidade como uma virtude raríssima; sei ser grato pela mão estendida, sinto-me endividado pelo amor gratuito.”

“Viver me enche de entusiasmo. Não tento mais matar o tempo. Quero sorver a vida com tudo o que ela tiver de bom e de ruim. Como um colecionador de borboletas, procurarei guardar, daqui para frente, todos os meus momentos em estojo de cristal”.

“Amar requer coragem (...) Para que o amor aconteça, as gaiolas devem ser abertas, os cadeados destravados e os caminhos liberados.”

“A grandeza de uma causa não é determinada pelo que seus seguidores ganham ao segui-la, mas pelo preço que estão dispostos a pagar por ela.”

“A gente acaba aprendendo a disfarçar as angústias mais profundas. Bastam algumas sessões fotográficas para o desenho da boca não denunciar qualquer dor e os olhos deixarem de ser janelas da alma.”

“Sinto que Deus ainda vive no sonho das crianças; ainda habita onde reside a musa do poeta; ainda se revela no desejo do profeta; ainda se move além do horizonte utópico do guerreiro.”

“Minha saudade é incontrolável; sabota os fossos mais resistentes do coração. Faz metáfora do tudo; busca trazer à tona a vida submergida.”

“Quando parecer melancólico, com um olhar triste, não se espante. Estou com saudade”.

“...aprendi que a maioria das pessoas não teme morrer, mas se apavora em não saber viver.”

“Não adianta querer sonhar a mesma coisa duas noites seguidas. O sexo de ontem não será igual ao de amanhã. A onda do mar nunca retorna como era; o rio morre a cada instante.”

“A beleza das cores, o prazer do vinho, a alegria do amor têm data marcada para terminar. A vida é efêmera.”

“Sem porto para atracar, faço da vida um sempre por navegar, pois viver não é preciso.”

“A felicidade só tem permanência da memória, somos felizes à medida que guardamos o que um dia nos marcou. Não passa de cheiros que lembram pessoas e lugares inesquecíveis; é um de já vu que ressuscita eventos submersos.”

“O próximo tanto pode ser fonte de alegria, como de frustrações. Quem tenta isolar-se para não passar decepções, empobrece.”

“Todos devem ansiar por amabilidade. Por isso, devem ser menos empreendedores e mais sensíveis, menos paladinos e mais solícitos.”

“Amizades superficiais são mais danosas para o espírito do que inimizades explícitas.”

“O poder nos torna arrogantes, frios, duros e inclementes. Somente a fragilidade nos torna dóceis, amáveis e de fácil relacionamento.”

“Quem tenta blindar-se das tristezas precisa também se proteger da alegria. Fugir do sofrimento significa amortecer a felicidade”.

“Relutamos com a consciência de que a todo instante o passado cresce e o futuro diminui.”

Gostaram? Verão muitas outras, maravilhosas, em seu twitter: @GondimRicardo. E não preciso nem dizer que "Sem perder a alma" é altamente recomendável para quem gosta de pensar.

domingo, 29 de agosto de 2010

A felicidade mais simples


Eu estava entristecida há alguns dias, e nem sabia exatamente o porquê. Não chegava a ser pungente, mas uma tristezinha de papel fino, dessas que envolvem os nossos pensamentos. Você deve saber do que estou falando.

Acho que nossas angústias geralmente estão ligadas às perdas: nos apegamos demais às coisas, ao tempo, às pessoas. Esquecemos que as coisas se acabam, o tempo passa, e as pessoas se vão. E as pessoas que se vão, ah... Muitas vezes deixam marcas irreparáveis.

Em dias assim gosto de ir a lugares que me inspirem, para sentar, refletir, observar tudo a minha volta. Sempre fui uma dessas pessoas que gostam de olhar o pôr-do-sol, sentir o vento, a chuva, mas eu gostava de fazer isso com “ele”... Já dizia Drummond que de “mãos dadas” tudo pode ficar mais bonito.

Acredito que uma bela paisagem não tem muito sentido quando não pode ser compartilhada, talvez seja como possuir um belo quadro e guardá-lo dentro do armário, só para você mesmo vê-lo.

Mas eu não queria lembranças e sabia que enquanto não praticasse a "arte do desapego" e aprendesse a encantar-se com as pequenas coisas, ficaria impraticável atravessar os dias. Comecei então a procurar sorrisos, para descobrir o que fazia cada uma daquelas pessoas felizes.

Observei por um bom tempo uma mulher de aproximadamente 40 anos, que aprendia a andar de bicicleta. Ao errar e quase cair, ela sorria, meio sem jeito, talvez com vergonha das pessoas que caminhavam naquela travessa. Sua felicidade era quando conseguia pedalar alguns metros. E isso eu via no brilho dos olhos dela.

Uma criança descalça, na beira do rio. Olhava para os seus pés e divertia-se com a sensação do chão crescer macio sob eles... Não se importava em sujar a barra da calça, só queria ‘sentir’. Outra garotinha saboreava um algodão doce e, com uma olhar inocente, brincava com a leveza do açucar em forma de nuvem. Aliás, acho mesmo que as crianças sejam mais felizes que nós: são puras, podem enxergar a felicidade nas pequenas coisas, como alimentar os pombos ou soltar pipas.

E quanto a nós? Vamos depender de “outro” para contemplar o belo? Vamos esperar pelo “outro” para ser feliz? Esperar o inverno passar? Cada um pode encontrar, todos os dias, algo que desperte sorrisos. Parar para ver a Lua ou ouvir o som da chuva batendo nas folhas. Ler um bom livro embaixo de uma árvore. Escrever um livro. Plantar uma árvore. Você não precisa de alguém para fazer tudo isso.

Cultive agora mesmo a felicidade mais simples, incondicional, que há "aí dentro". Eu, por exemplo, fiquei feliz hoje ao encontrar raras flores de cerejeira. Elas são como os ipês: florescem no inverno, avesso às outras flores que ficam esperando pela Primavera...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O destino que eu quero, eu faço


“O destino conduz os que querem ser conduzidos e arrasta os que
não querem. Eu tenho andado mais ou menos de arrasto,
Nem sempre quero ir para onde o destino me leva."

Você acredita em destino? Sei lá, me deu vontade de escrever um pouco sobre isso. Nas discussões que envolvem o tema a dialética é sempre a mesma: há quem afirme que ele é traçado assim que nascemos e quem acredite que ele é moldado de acordo com as nossas vontades.

Uns preferem não se preocupar, dizendo que o destino não dependerá de suas atitudes para se cumprir. Talvez seja cômodo pensar assim, afinal, para quê lutar por algo se ele não estará no nosso futuro? Outros, têm a certeza de que o destino vai se formando nos momentos de decisão. Hoje eu faço parte do segundo grupo.

Mas acreditei, em boa parte da vida, que o destino fosse aquela coisa bacana, que “pela ordem natural do universo” faz tudo dar certo no final. Assim como nos filmes da Disney e nas novelas do SBT. “Oh, mas o destino fará com que fiquem juntos no final! Ah, está no destino dela ser feliz e ter uma carreira brilhante!”. Se lutarem por isso, sim. Se ficarem a “mercê” do destino e de braços cruzados, jamais.

E ainda há outra vertente: enquanto uns criam os acontecimentos, outros suportam o que acontecem na sua vida atribuindo às causas como sendo impostas pelo destino. É fácil usar o destino como uma “desculpa” para o fracasso, mais fácil que admitir nossas falhas, não é?

Embora eu já tenha causado uma breve discussão no Twitter por causa dessa palavrinha, continuo com minha tese de que destino é a gente que faz. EU decido quem eu quero ser, não o destino. Eu cultivo os amigos que quero, seleciono os livros que eu leio, opto pelos valores que abraço. Vou para onde quero viver.

Destino eu faço quando me levanto do comodismo do meu sonho e vou à luta para torná-lo real, mesmo que eu precise criar o que quero para ser parte daquilo. Caso contrário, o ”livre arbítrio” não teria sentido algum. Desde as minhas mínimas escolhas, todas elas formam o meu destino. O destino que eu quero.

Como diria Jack Welch: "Controle o seu destino ou alguém controlará." E você? Quer ser dono do seu destino?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

[Des]amor moderno


O amor está com a data de validade vencida. Se não, está pra vencer. Os casais cada vez mais pensam no “eu” e se esquecem do “nós”. Cobram por amor “full time”, mas não estão dispostos a doar-se inteiramente por esse mesmo amor que esperam. Querem o “feedback” da atenção que não dão.

Companheirismo, paciência e tolerância com os defeitos do parceiro não têm mais espaço. Cederam seus lugares ao desejo de um “amor mercadológico” e instantâneo: tenho tudo o que quero, experimento, uso, jogo fora ou troco por um modelo melhor na hora que eu quiser. Os aplicativos de pegação estão aí: é “delivery de amor”, 24 horas.

Tem relacionamento que segue a linha “fast-food”. Isso mesmo: comida rápida. Muitas vezes cobram a lealdade do parceiro, mas não querem prender-se a uma única pessoa já que há tanta oferta barata por aí. E tão barata e fácil, que aquele belo “amor à primeira vista” já deu lugar ao “amor a prazo”.
Sim, e o prazo é curtíssimo: é quase um amor descartável, encontrado aos montes por “search” nas redes sociais. Ganha quem conseguir o maior “time per person”, não necessariamente nessa ordem. Tem gente que quer ser “freela” quando o assunto é amor.

A casa vira uma empresa, o casamento um bem de consumo. E dependendo da sua sorte você fica com os bens. A Lei até facilitou o divórcio. Devem estar prevendo que amor se tornará uma instituição falida.

Alias, alguém falou de amor? Em breve, uma nova reforma ortográfica vai eliminar de vez esse vocábulo de livros e dicionários. E as declarações de amor? Se já não foram extintas, serão tão raras e rápidas que vão ser dignas de “retweet”.

O “deadline” do amor está próximo. De repente, a modernidade abriu um notável espaço para o desamor. Melhor ficar em modo “stand by”.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Além da Democracia...

"Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um."

Este não é o tipo de texto que costumo postar aqui e tampouco pretendo começar a falar sobre política no meu blog. É apenas uma exceção devido à fase que atravessamos. O fragmento que segue abaixo da breve introdução (O voo 0666) é de autoria de Rubem Alves, e retirei de um de seus livros que li há pouco.

Mais do que defender a “democracia” e o candidato que você escolheu, é importante estar atento, saber avaliar quem realmente está preparado e tem competência para governar o país. E tentar fazer do Brasil um lugar melhor é compromisso que deve sobrelevar a “fidelidade partidária”.

Acho que a democracia perde um pouco o sentido quando passa a contabilizar mais pessoas disputando quem tem o melhor candidato do que pleiteando seus verdadeiros ideais. Competência para comandar um país vai muito além de um nome e/ou uma sigla.

É preciso cultura, conhecimento, pulso. Às vezes acho necessário, e até inteligente, ignorar o que dizem as pesquisas, afinal, “seguir a boiada” nem sempre é a atitude mais sensata. É preciso pensar com a própria cabeça: abandonar o comodismo, ser curioso, pesquisar, investigar.

Nesses meses que antecedem as eleições é bom inferir sobre nossa liberdade eleitoral, estar por dentro de tudo o que acontece, com todos os candidatos. Que esse pequeno texto o leve a uma breve reflexão e o ajude a fazer a escolha certa. Porque quem reflete pouco, acaba errando muito.

O voo 0666
“Senhores passageiros do voo 0666, Paris-São Paulo, da TARIG, linhas aéreas democráticas”. A voz soou metálica na sala do aeroporto onde os passageiros aguardavam o início do embarque. Cessaram imediatamente as conversas, fez-se silêncio e os passageiros trataram de prestar atenção nas instruções que se seguiram. A voz continuou: “A TARIG, linhas aéreas democráticas, no esforço para democratizar os seus serviços, avisa os senhores passageiros que dentro de alguns minutos terá início uma assembleia livre soberana para a escolha democrática do piloto que comandará o voo Paris-São Paulo.

Os candidatos poderão se inscrever no balcão da empresa devendo, para isso, preencher as seguintes condições: (1) ser maior de idade; (2) dar prova de ser capaz de assinar o nome”. Fez-se um grande silêncio na sala de embarque. Os passageiros, olharam uns para os outros, incrédulos, pegaram suas bolsas, pastas e mochilas e em silêncio deixaram vazia a sala da TARIG, linhas aéreas democráticas, e foram em busca de uma linha aérea que, sem ser democrática, fosse inteligente e que escolhesse seus pilotos por competência e não por voto da maioria.

domingo, 1 de agosto de 2010

“No meio do espinho tinha uma rosa, tinha uma rosa no meio do espinho"


Sim, lhe é familiar essa frase. É inegável que a poesia de Drummond marca de alguma forma a vida de quem conhece sua originalidade. Em “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, Drummond expressa situações de dificuldade, impasse, de “impedimentos” que nos surpreendem em nossa caminhada. São obstáculos que enfrentamos e, de alguma forma, acabam deixando cicatrizes, que nem o tempo apaga... “Nunca me esquecerei que no meio do caminho, tinha uma pedra”.

Quando observei e fotografei essa pequena rosa, em meio a tantos espinhos, o poema de Drummond me veio à mente... Assim como nos deparamos, frequentemente, com pedras em nosso caminho, é comum defrontar-nos com os “espinhos” das “rosas” que cercam o jardim de nossas vidas... As fraquezas daqueles que estão ao nosso lado. É preciso saber conviver com esses espinhos e extrair apenas o “perfume”, a essência, o que cada um tem de melhor, mesmo porque somos dotados tanto de virtudes quanto de defeitos. Somos flores entre espinhos, assim como temos pedras pelo nosso caminho... É preciso aceitar, para ser aceito. Quebrar pedras e cuidar das flores...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O que restou...


O que ficou de você em mim,
Foi a presença da sua ausência,
As lembranças que o tempo não apagou...
O que ficou de você nesse apartamento,
Foram algumas roupas, que logo serão devolvidas,
Os seus livros, alguns dos quais serão meus,
Aqueles que compramos juntos...
O que ficou foi a falta do seu sorriso nas manhãs.
E suas palavras ecoando na memória...
O que sobrou foi o seu olhar,
impresso na minha mente em preto e branco...
E o que restou do amor,
Foram apenas algumas flores secas,
Guardadas em meio a um livro...
O que ficou foi a vontade do que não foi
E que poderia ter sido...
Ficou a saudade do primeiro encontro,
E o desejo de que ele não houvesse acontecido...
Restou o silêncio das palavras não ditas,
E as estrelas que colamos no teto do quarto,
Algumas caíram quando você se foi...
O que sobrou foram nossos retratos e,
Quando vi uma foto da gente feliz,
Custei a acreditar que fosse real...
Ficaram os nossos erros,
talvez algum indício de perdão...
E então,
Lembrei de que não me preparei
Para a sua vinda,
E nem pude prever sua partida...
E quando você se foi de vez
O que eu poderia fazer?
Ficar com o que restou...
E o que restou fui eu.
E um vazio...
Algumas palavras são apenas lágrimas que foram escritas...

domingo, 11 de julho de 2010

Fotografo porque...

... a ideia do fim me dói.

"De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-Ias voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória."

Observam e me perguntam por que sempre estou com minha máquina fotográfica. Meus amigos sentem-se, muitas vezes, incomodados por eu querer fotografar a todo o momento, principalmente quando os incluo entre as fotos. Alguns até se recusam. Explico.

Penso que tudo o que é belo deve ser imortal. Não suporto - tampouco aceito - a idéia do que é efêmero. Acho que os bons momentos devem ser eternizados. Talvez seja uma espécie de luta contra a morte.

Fotografo um pôr do sol, porque sei que ele nunca será o mesmo embora o sol renasça a cada dia. O céu é sempre belo, mas as nuvens transformam-se constantemente.
Fotografo uma flor, para que ela permaneça com suas cores vivas, mesmo após o tempo que envelhece, que seca, que mata.

Fotografo um sentimento – e sim, é possível fotografar sentimentos – para que continue vivo mesmo com sua efemeridade. Um sorriso, uma lágrima, um abraço. Olhares cheios de amor eternizados em fotos, mesmo que adormecidos dentro dos corações dos amantes. A felicidade que dura um pequeno instante.

Fotografo pessoas. Porque elas se vão, sempre. E fica essa lembrança, apenas.
Fotografo a chuva, a folha molhada, porque as gotas espalhadas uniformemente nunca cairão sobre a mesma superfície em semelhante disposição. É a arte da natureza, diferente a cada dia.
Fotografo momentos, porque também não se repetem com a mesma exatidão, nem com o mesmo sentido.

Fotografo a mim mesma, porque conheço a inexorabilidade do tempo e sei que ele trará inevitáveis rugas à minha face.
Fotografo um rio, pois quando tornar a vê-lo, as águas que correm por ele jamais serão as mesmas.

Fotografo monumentos, que o tempo e a chuva vão corroer, consumindo-os lentamente.
Fotografo as festas que vou. Ao rever as fotos posso ouvir as músicas na minha memória, relembrar de cada pessoa que fez parte da minha vida, mesmo que por apenas algumas horas.
Fotografo a primavera, o outono, o inverno, o verão. Uma eterna metamorfose cíclica. E não sei quantas voltas ainda poderei ver.

Desde que comprei minha primeira câmera, tenho minha vida eternizada. Meus amigos, embora reclamem. Meus amores, embora nem sempre seja tão bom recordá-los, sei que estarão lá, guardados, como prova de que um dia valeu a pena.

Entristeço quando um belo momento passa diante de meus olhos sem que eu tenha uma câmera em mãos. Pois além de querer compartilhá-lo, sei que não é seguro submetê-los apenas ao teste da memória. Porque com o tempo, ela enfraquece.

E quando eu me perguntar para onde foram os dias que eu vivi, a reposta estará em cada página dos álbuns que eu abrir.

Já dizia o poeta que “recordar é viver...”

domingo, 4 de julho de 2010

Na feira de domingo...



Hoje foi dia de feira aqui perto de casa. As feiras aqui em São Paulo se assemelham muito às do interior, exceto pela vastidão dos corredores. Marco presença quase todas as manhãs de domingo, quando consigo acordar sem que o despertador interrompa meus sonhos. Por isso aos finais de semana deixo a janela aberta: para despertar espontaneamente com os raios do sol.

Gosto de ir à feira para saborear os famosos pastéis de vento que, por sinal, aqui são muito bem recheados e trazem o gostinho da minha infância, gostinho familiar de "quero mais". Tanto que até esqueço que me encontro em um “mundo desconhecido”, sozinha em uma cidade gigante como essa, perdida entre tantos rostos.

Mas além dos pastéis, das vozes dos feirantes que se misturam, cada qual oferecendo sua melhor colheita, além da infinidade de cores, cheiros, sabores, além dos cachorros rodeando o “churrasquinho grego”, dos carrinhos atropelando meus pés e dos legumes pisoteados no chão, muita coisa desperta meu olhar curioso.

O vendedor de mel que enfrenta o medo das abelhas para poder oferecê-lo em pequenos gomos, a simpatia dos feirantes que nos abordam com um "bom dia" e nos oferecem o fruto de seus trabalhos, e que com certeza são os melhores publicitários que já conheci: “Olha a abobrinha baratinha, olha o morango fresquinho!” Também a esperança da vendedora de buquês de flores que acredita que levará um pouco mais de amor, sorrisos ou mesmo de reconciliação aos enamorados, e a alegria do vendedor de peixes que se diverte jogando pedrinhas de gelo em seu concorrente. Mas não, não há concorrência! Lá todos são amigos, unidos por um mesmo propósito.

Eu queria falar de todos, mas encerro com o vendedor de garapa que me chamou muito a atenção. Com esforço ele mói cada galho de cana, que aos poucos se transmuta em um líquido tão doce quanto mel. Como se estivesse moendo a rudeza e o amargor da vida para extrair a brandura de um viver adocicado. E em copos de 300 e 500ml acredita que pode espalhar um pouco mais de doçura por aí, a um preço que todos podem pagar... E espalha! Não apenas o sabor doce da cana, mas a ternura de palavras gentis, de um sorriso aberto a cada um que se aproxima de sua barraca.

Em dia de feira parece que tudo fica mais alegre e colorido, apesar da languidez do domingo. Que bom seria se, além de copos de garapa e gomos de mel, vendessem copos de ternura, potes de felicidade, doses de ânimo e pacotinhos de sorrisos. E como isso não é possível, sejamos então como o vendedor de garapa: façamos a nossa parte para adocicar um pouquinho a vida de cada um que cruza nosso caminho pelos corredores da vida!